Entre o documentável e o indocumentável: uma etnografia sobre responsabilizações de violências policiais

Autori

  • Marina Ribeiro Universidade Estadual de Campinas

DOI:

https://doi.org/10.62551/2595-4539.2026.559

Parole chiave:

Ministério Público, Violência Policial, Responsabilização, Jovens, Promotores

Abstract

O presente estudo objetiva descrever e analisar um projeto conduzido por promotoras de Justiça do Ministério Público de Campinas (SP), entre 2015 e 2018, voltado à responsabilização de violências policiais praticadas contra jovens considerados infratores. Para a análise, foram disponibilizados 51 inquéritos civis que buscavam reunir provas a fim de enquadrar tais violências como improbidade administrativa. Esse enquadramento foi nomeado como “gambiarra” pela promotora protagonista do projeto. A metodologia que
se revelou mais coerente foi a etnografia documental, por permitir evidenciar a capacidade dos documentos de produzir destinos, relações, silenciamentos, moralidades, ambiguidades e hierarquias. Na medida em que os inquéritos reuniram um amálgama de documentos provenientes de diferentes esferas do sistema de justiça – como a Polícia Civil, a Polícia Militar, as corregedorias,
o Instituto Médico Legal e o próprio Ministério Público –, a análise permitiu vislumbrar outras agências além daquelas mobilizadas pelas promotoras. Com isso, foi possível iluminar as formas pelas quais diferentes instituições estabeleceram técnicas para gerir documentalmente abordagens de atos infracionais nas quais houve violência policial. Nesse sentido, a etnografia lançou luz sobre os aspectos documentáveis e indocumentáveis no processo de investigação de policiais, captando os modos de silenciamento documental
da violência de Estado. No que tange aos aspectos documentáveis, destaca-se a forma como as narrativas policiais adquirem centralidade nas economias textuais. Já os aspectos indocumentáveis se expressaram tanto na ausência da descrição de raça dos policiais e das narrativas dos jovens nos boletins de ocorrência quanto nos pedidos de desligamento das câmeras por parte dos policiais durante as oitivas realizadas no Ministério Público. Dessa forma, os documentos revelaram as camadas que sustentam
as narrativas policiais no interior do Sistema de Justiça e, nesse processo, evidenciaram como as desigualdades de raça, classe e gênero são continuamente retroalimentadas nos emaranhados dessa engrenagem institucional.

Biografia autore

Marina Ribeiro, Universidade Estadual de Campinas

Doutoranda e mestra em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Pesquisadora do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Currículo: http://lattes.cnpq.br/3297408946751638.

Riferimenti bibliografici

BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? 7. ed. [S. l.]: Civilização Brasileira, 2015.

CORRÊA, Mariza. Morte em família: representações jurídicas de papéis sexuais. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983. v. 12.

FARIAS, Juliana. Governo de mortes: uma etnografia da gestão de populações de favelas no Rio de Janeiro. [Rio de Janeiro]: Papéis Selvagens Edições, 2020.

FERREIRA, Poliana da Silva. Justiça e letalidade policial: responsabilização jurídica e imunização da polícia que mata. São Paulo: Jandaíra: Justiça Plural, 2021.

FLAUZINA, Ana Luiza Pinheiro. Corpo negro caído no chão: o sistema penal e o projeto genocida do Estado brasileiro. 2006. Dissertação (Mestrado em Direito) – Faculdade de Direito, Universidade de Brasília, Brasília, 2006. Disponível em: https://repositorio.unb.br/handle/10482/5117. Acesso em: 4 ago. 2026.

FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. 3. ed. São Paulo: NAU Editora, 2002.

GODOI, Rafael et al. Letalidade policial e respaldo institucional: perfil e processamento dos casos de “resistência seguida de morte” na cidade de São Paulo. Revista de Estudios Sociales, Bogotá, n. 73, p. 58–72, jul. 2020. Disponível em:https://geni.uff.br/wp-content/uploads/sites/357/2021/02/2020_Godoi-et-ali_Revista-de-Estudios-Sociales_Letalidade-Policial.pdf. Acesso em: 4 ago. 2026.

INGOLD, Tim. Antropologia: para que serve. Petrópolis: Editora Vozes, 2019.

JESUS, Maria Gorete Marques de. “O que está no mundo não está nos autos”: a construção da verdade jurídica nos processos criminais de tráfico de drogas. 2016. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016. Disponível em: https://repositorio.usp.br/item/002789819. Acesso em: 4 ago. 2026.

JESUS, Maria Gorete Marques De. VERDADE POLICIAL COMO VERDADE JURÍDICA: NARRATIVAS DO TRÁFICO DE DROGAS NO SISTEMA DE JUSTIÇA. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 35, n. 102, p. e3510210, 2020. Disponível em: https://nev.prp.usp.br/wp-content/uploads/2020/01/0102-6909-rbcsoc-35-102-e3510210.pdf . Acesso em: 4 ago. 2026.

LAWRENCE, Ralph. Alibi: the extralegal force embedded in the law (United States). In: FASSIN, Didier (org.). Writing the world of policing: the difference ethnography makes. Chicago: The University of Chicago Press, 2017, p. 267-288.

LEMGRUBER, Julita; MUSUMECI, Leonarda; CANO, Ignacio. Quem vigia os vigias?: um estudo sobre controle externo da polícia no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2003.

LEMGRUBER, Julita et al. Ministério Público: guardião da democracia brasileira? Rio de Janeiro: Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), 2016.

LIMA, Antonio Carlos de Souza (org.). Gestar e gerir: estudos para uma antropologia da administração pública no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará : Núcleo de Antropologia da Política, 2002.

LIMA, João Marcelo. Ainda em busca de controle: um olhar sobre o Ministério Público paulista e a violência policial. Revista LEVS, Marília, SP, n. 9, 2012. Disponível em: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/levs/article/view/2235/0. Acesso em: 4 ago. 2026.

LIMA, Roberto Kant de. A tradição inquisitorial. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 4, n. 10, p. 65-84, 1989.

MEDEIROS, Flavia. “Linhas de investigação”: uma etnografia das técnicas e moralidades sobre “homicídios” na Polícia Civil da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. 2016. Tese (Doutorado em Antropologia) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2016. Disponível em: https://app.uff.br/riuff/handle/1/9272. Acesso em: 4 ago. 2026.

MELO, Cilmara Veiga Lima de. O caso do Maníaco Matador de Velhinhas: entre trâmites processuais e diferentes formas de narrar que enredam um crime em série. 2018. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2018. Disponível em: https://repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/1058088. Acesso em: 4 ago. 2026.

MISSE, Michel. O papel do inquérito policial no processo de incriminação no Brasil: algumas reflexões a partir de uma pesquisa. Sociedade e Estado, Brasília, v. 26, n. 1, p. 15-27, abr. 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/se/a/3X65HgfGRdF59Dwd9G3dKbM/?lang=pt. Acesso em: 4 ago. 2026.

NADAI, Larissa. Descrever crimes, decifrar convenções narrativas: uma etnografia entre documentos oficiais da Delegacia de Defesa da Mulher de Campinas em casos de estupro e atentado violento ao pudor. 2012. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2012. Disponível em: https://assets-compromissoeatitude-ipg.sfo2.digitaloceanspaces.com/2014/02/NADAILARISSA_dissertacaoviolenciasexualCampinas2012.pdf. Acesso em: 4 ago. 2026.

NADAI, Larissa; VEIGA, Cilmara. Comparações entre laudos periciais em casos seriais produzidos pelo Instituto Médico-Legal (IML) de Campinas e de Juiz de Fora. In: FERREIRA, Letícia; LOWENKRON, Laura (org.). Etnografia de documentos: pesquisas antropológicas entre papéis, carimbos e burocracias. Rio de Janeiro: E-Papers, 2020.

NADER, Laura. Para cima, antropólogos: perspectivas ganhas em estudar os de cima. Antropolitica - Revista Contemporanea de Antropologia, Niterói, n. 49, maio/ago. 2020. Disponível em: https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/44427/30133. Acesso em: 4 ago. 2026.

NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Editora Perspectiva, 2016.

PEIRANO, Mariza. Etnografia não é método. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 20, n. 42, p. 377-391, dez. 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ha/a/n8ypMvZZ3rJyG3j9QpMyJ9m/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 4 ago. 2026.

PROPP, Vladimir. Morphology of the folktale. 2. ed. Tradução de Laurence Scott. Edição e revisão de Louis A. Wagner. Austin: University of Texas Press, 1968.

PEREIRA, Larissa Urruth. Quem policia a polícia? Breves considerações sobre a atuação policial no Brasil. Revista Brasileira de Sociologia do Direito, v. 1, n. 2, p. 83-97, jul./dez. 2014. Disponível em: https://revista.abrasd.com.br/index.php/rbsd/article/view/29. Acesso em: 4 ago. 2026.

RIBEIRO, Marina de Oliveira; SILVA, Luana Barbosa da. A condição estatística da violência policial em Campinas contra jovens acusados de atos infracionais. Conversas & Controvérsias, v. 7, n. 1, e35636, jan./jun. 2020. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/conversasecontroversias/article/view/35636. Acesso em: 4 ago. 2026.

SHARMA, Aradhana; GUPTA, Akhil (ed.). The anthropology of the State: a reader.Malden: Blackwell Publishing, 2006. (Blackwell readers in antropology, 9).

SINHORETTO, Jacqueline; LIMA, Renato de. Narrativa autoritária e pressões democráticas na segurança pública e no controle do crime. Revista Contemporânea, São Carlos, v. 5, n. 1, p. 119–141, jan./ jun. 2015. Disponível em:https://www.contemporanea.ufscar.br/index.php/contemporanea/article/view/299. Acesso em: 4 ago. 2026.

STOLER, Ann Laura. Along the archival grain: epistemic anxieties and colonial common sense. Princeton: Princeton University Press, 2009.

TAUSSIG, Michael T. Defacement: Public Secrecy and the Labor of the Negative. Stanford, CA: Stanford University Press, 1999.

TEIXEIRA, Carla Costa. Pesquisando instâncias estatais: reflexões sobre o segredo e a mentira. In: CASTILHO. Sérgio Ricardo Rodrigues; LIMA, Antonio Carlos de Souza; TEIXEIRA, Carla Costa (org.). Antropologia das práticas de poder: reflexões etnográficas entre burocratas, elites e corporações. [Rio de Janeiro]: Contracapa, 2014, p. 33-42.

VIANNA, Adriana. Etnografando documentos: uma antropóloga em meio a processos judiciais. In: CASTILHO. Sérgio Ricardo Rodrigues; LIMA, Antonio Carlos de Souza; TEIXEIRA, Carla Costa (org.). Antropologia das práticas de poder: reflexões etnográficas entre burocratas, elites e corporações. [Rio de Janeiro]: Contracapa, 2014. p. 43–70.

VIANNA, Adriana; FARIAS, Juliana. A guerra das mães: dor e política em situações de violência institucional. Cadernos Pagu, Campinas, n. 37, p. 79–116, jul./dez. 2011. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/8645008. Acesso em: 4 ago. 2026.

Pubblicato

2026-10-06

Come citare

Ribeiro, M. (2026). Entre o documentável e o indocumentável: uma etnografia sobre responsabilizações de violências policiais. Cadernos Da Escola Do Legislativo, 28(48), 1–29. https://doi.org/10.62551/2595-4539.2026.559

Fascicolo

Sezione

DOSSIÊ TEMÁTICO